Tão longe e tão perto

 

 

Cantora com mais de 20 anos de experiência na lida musical e dona de um timbre marcante, Ilessi chega ao segundo disco disposta a arriscar por caminhos novos, diferente do samba, presente no primeiro trabalho, Brigador (2009), onde gravou músicas de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro, com arranjos de Luis Barcelos.

Mundo Afora: Meada é desafiador, cheio de tensões, mas também cheio de beleza e expressividade. Os arranjos, todos assinados por Thiago Amud, contorcem a lógica musical comum. Vão de Arnold Schöenberg a Tom Jobim, num piscar de olhos; às vezes, nas duas direções ao mesmo tempo.

Como camadas de tintas, andamentos e melodias vão se sobrepondo, contraponteando uns aos outros. É como se equações matemáticas ganhassem cores e sons, enquanto a potente voz de Ilessi conta estórias compostas por compositores da sua geração. Entre eles, Marcelo Fedrá, Gonzaga da Silva, Marcelo Noronha, Vidal Assis, Paulo Rocha, Milena Tibúrcio, Caio Tibúrcio e o próprio Amud, que assume o violão na maioria das músicas.

A canção aparece multifacetada. Ao mesmo tempo, local e global; cosmopolita, sem fronteiras e com identidade. O uso de instrumentos pouco utilizados como o berimbau de boca, kanjira, morchang, pakawaj, tambora e chamador. O konnakol, espécie de improviso vocal indiano, também marca presença na música Miragem, trazendo um sabor todo especial a um disco por si só bem temperado.

Com seu canto, Ilessi liga os pontos entre diversas culturas por vezes distantes mas com muito em comum entre si. Aponta estradas que levam a diferentes continentes e cria condições propícias de partida e atracagem. Através dele, dá para percorrer algumas partes do mundo em apenas 10 faixas.

O álbum pode ser definido, em muitos momentos, como apoteótico, (neo)barroco e positivamente hiperbólico. Povoado de artifícios e signos que se encontram e se chocam num desperdício erótico, ou, nas palavras do escritor e teórico cubano Severo Sarduy, uma “acumulação de diversos nódulos de significação, justaposição de unidades heterogêneas”. Uma superabundância literária e musical que escapa das generalizações fáceis e constrói um lugar outro, repleto de intratextualidade.

Esse “desperdício” erótico-sígnico pode ser percebido já no seu título, inspirado pelo “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. É uma experiência similar à de estar diante de uma obra da artista plástica Adriana Varejão, da fase em que explorava ao mesmo tempo a sensualidade da carne e a azulejaria mineira e portuguesa. Combinações estéticas nada óbvias e de grande força que fazem deste trabalho algo feito para durar.

Embora possa levar um tempo até que olhos e ouvidos se abram para a importância desse passo, a poderosa parceria entre Ilessi e Thiago Amud certamente abriu rotas incontornáveis na história da nossa música.

 

***

 

Álbum: Mundo Afora: Meada
Autor: Ilessi
Ano de lançamento: 2018
Gravadora: Rocinante

Avaliação: * * * * | Muito bom

Ouça o disco:

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